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 O presente tópico apresenta uma análise histórica do comércio de diamantes ao longo da história mundial enfatizando seus principais players e estratégias políticas econômicas e publicitárias utilizadas para consolidar o mercado como se conhece na atualidade. Foi produzido tendo como base, observações feitas por Spar, D. L. (2006)1 além de informações coletadas no livro “The Mazzel Ritual” de Siegel, D. (2009)2. Outras fontes como notícias de jornais, biografias de nomes dos executivos do setor, e por fim, em sites das próprias empresas citadas, contribuíram para o desenvolvimento deste tópico.

 Os diamantes foram descobertos na Índia, em 800 a.C., segundo manuais da história da mineração, tornando-se a primeira produtora mundial de diamantes, ainda segundo esses relatos. Em 327 a.C., Alexandre, O Grande, em um dos seus retornos triunfais das grandes conquistas territoriais, leva amostras de diamante da Índia para a Europa, onde a pedra preciosa ficou conhecido tanto nos domínios do seu Império Grego quanto no Romano como pedaços de estrelas caídas.

 Durante a idade média, os diamantes começaram a ser utilizados como moeda com valor agregado, valendo mais que o ouro. Somente em 1074 d.C., houve relatos da primeira joia com diamante usada pela rainha húngara, Sophia von Looz. Em 1477, foi presenteado o primeiro anel de noivado com diamante, pelo arquiduque Maximiliano. Depois disso, virou uma tradição presentear uma mulher com diamante.

 A lapidação brilhante foi desenvolvida apenas em 1650, pelo Cardeal Mazarino (1602-1661), estadista italiano que foi PrimeiroMinistro na França por 19 anos. As primeiras joias lapidadas ficaram conhecidas como brilhantes mazarinos de corte duplo. Em 1837, foi fundado a Tiffany & Co (que na época levava o nome de Tiffany, Young and Ellis), sendo uma das maiores joalherias do mundo, até hoje.

 Em 1867 começa a corrida de diamante na África do Sul dando início à moderna indústria de diamantes com a descoberta de grandes reservas neste país. Tal fato deu início a história de um dos maiores monopólios do mundo, se não o maior, o mais bem estruturado e que é marcado por apenas uma palavra, DeBeers. Não é possível falar da história do mercado moderno de diamantes sem explicar a história da própria DeBeers.

 Cecil Rhodes, inglês nascido em 1853, acometido de asma, foi mandado pelo seu pai para a África do Sul, em 1870, como tentativa de melhorar sua saúde em um clima mais quente e um ar mais puro. Rhodes começou trabalhando na fazenda de algodão do seu irmão, Herbert, mas o negócio não deu certo e os dois partiram, um ano depois, para Kimberley, tentar a sorte nas terras dos diamantes. No começo os Rhodes ganharam dinheiro levando máquinas de bombeamento de água para alugar nas minas de diamante da região. Poucos anos depois, Rhodes foi financiado pela empresa N M Rothschild & Sons para comprar minas de diamante em Kimberley. Em 1880, Rhodes fundou a DeBeers Mining Company para administrar suas propriedades e, em pouco menos de oito anos, já possuía todas as licenças de pesquisa e mineração da região, além de grande influência no parlamento e nas organizações governamentais.

 Com o crescente aumento de investimentos e tecnologias nas minas de diamantes, além das descobertas de novas ocorrências na região, Rhodes percebeu o elevado número na oferta de diamantes para a Europa e a crescente desvalorização de tal produto (que detinha alto valor devido à sua raridade). Isso o levou a formar uma organização unificada e verticalmente integrada para gerenciar o fluxo de diamantes da África do Sul, chamada de Sindicato dos Produtores de Diamante. Para garantir os preços sempre altos, o sindicato comprava qualquer excedente de oferta que existisse no mercado.

 Ernest Oppenheimer, um alemão que trabalhava na corretora de diamantes britânica chamada Dunkelsbuhler & Company, foi enviado a trabalho para a África do Sul, em 1902, ficando encarregado das compras dos diamantes. Oppenheimer se sentia ameaçado economicamente pelo sindicato e logo conheceu e se tornou amigo dos chairmen de diversas mineradoras do local (Transvaal Coal Trust, Brakpan Minas, Springs Mines e The New Era Company). Em 1917, formou com o sócio Pierpont Morgan, uma das maiores empresas de mineração do mundo, a Anglo American Corporation. O sindicato para não ter uma concorrência à altura afiliou Oppenheimer que se tornou presidente do sindicato dos produtores de diamantes, em 1925 e, em 1929, também assumiu o controle da DeBeers, empresa líder e pertencente ao seu antigo concorrente.

 Em 1930 durante a “Grande Depressão” econômica que era vivenciada pelo mundo, Oppenheimer contratou a agência de publicidade N.W. Ayer and Son para associar, ao público americano, o diamante com status social e romance, de onde posteriormente surgiu uma das maiores brandings do mundo, junto à frase “diamond is forever”. Ele também criou a Central Selling Organization (CSO), grupo sediado em Londres para atuar como o intermediário entre os diamantes extraídos na África e os joalheiros ou lapidários em várias partes do mundo. Dez vezes por ano, um grupo de elite chamado “sightholders” escolhidos a dedo pela DeBeers, se reunia e recebi lotes de diamantes para lapidação e fabricação de joias. Controlava assim a oferta, a qualidade e o preço dos diamantes no mercado. Este mecanismo é conhecido como Marketing Ordenado.

 Em 1950, na Austrália e na antiga União Soviética foram encontradas grandes reservas de diamante, que podia ameaçar o legado da DeBeers e do sindicato sobre a produção e comércio de diamante. Em 1957 Ernest Oppenheimer faleceu, sendo sucedido pelo seu filho Harry Oppenheimer.

 O sucessor, agora executivo do grupo, não apresentou uma boa administração frente aos negócios. Não soube lidar com a pressão que a entrada da Austrália e da antiga URSS provocaram nos negócios da cadeia produtiva do diamante. A URSS obedecia, em parte, ao sindicato mas se utilizava da KGB (serviço secreto da antiga URSS) para vender diamantes por fora do controle de produção e venda do sindicato.

 H. Oppenheimer chegou a sofrer acusações internacionais das ONGs Partnership Africa Canada e Global Witness de financiar os “senhores da guerra” em Serra Leoa, Libéria e Congo. A pressão das organizações fez com que a DeBeers fosse acusada nos EUA e proibida de atuar naquele país. Para finalizar, Angola cortou relações com o sindicato e passou a vender diretamente para a Lev Leviev (ex sightholder/vendedor da DeBeers). Com a pressão internacional, houve também a promessa de Nelson Mandela, Presidente da África do Sul, de nacionalizar as minas e indústrias monopolistas que atuavam no país, a descoberta de reservas diamantíferas no Canadá, junto aos demais fatores anteriormente descritos, fizeram com que H. Oppenheimer fosse retirado do cargo de Diretor Executivo das empresas controladas pela família, como a Anglo American Corporation, Central Selling Organisation (hoje chamada de Diamond Trading Company) e De Beers Consolidated Mines em 1982, 1984 e 1985 respectivamente, passando o comando para seu filho, Nicky Oppenheimer.

 Diante de tal “queda” da DeBeers, o mercado conseguiu respirar e outras empresas cresceram no setor, como a Alrosa (estatal Russa) e a Rio Tinto (empresa australiana). Nicky, diferente do seu pai, fez uma ótima administração mesmo diante de tantas mudanças no mundo. Ao assumiu o cargo, estreitou relações com o presidente da África do Sul, Nelson Mandela e com membros do Congresso Nacional Africano. Reestabelece acordos com as empresas, Alrosa (Rússia) e Rio Tinto (Austrália e Canadá) reestruturando o cartel de diamantes e, por fim, recupera a mineração em dois outros países que tinham se tornados independentes no período do seu pai e pararam de fornecer diamantes baratos, a Bostwana e a Namíbia. Nestes países, N. Oppenheimer constitui empresas com 50% da participação estatal.

 Em 2003, em uma jogada de mestre, cria o Certificado Kimberley necessário para dar mais segurança e transparência ao comércio de diamantes. O certificado passou a fornecer dados de origem do diamante em termos de mineração e lapidação. Tal iniciativa serviu tanto para limpa a imagem da DeBeers, como para iniciar um movimento contra os chamados “diamantes de sangue”. O certificado serviu também para inibir o surgimento de concorrências, já que para sua emissão, utilizava-se de setores governamentais, onde estes possuíam estreita relação com a DeBeers e ficavam também responsáveis para dificultar ou impedir a mineração e comercialização de diamantes legalizados com o certificado em todo o mundo.

 Em 2004, a DeBeers Société Anonyme (agora privada e administrada por Jonathan Oppenheimer, bisneto do fundador da empresa) vendeu US $ 5,7 bilhões em diamantes brutos ou 48% do total do mundo e informou ganhos para o ano de US $ 652 milhões. Neste mesmo ano as vendas mundiais de diamantes em bruto atingiram um nível recorde de US $ 11,2 bilhões, e as vendas de joias de diamante aumentaram 6%, para um total de US $ 65,5 bilhões. Em 2015, foram produzidos 127,4 milhões de quilates de diamantes no mundo. Um mercado seleto, com apenas 21 nações produtoras.

 Em 2018, os atuais players do mercado diamantífero estão listados na figura 1, sendo a Rússia a maior produtora com controle estatal da Alrosa, a segunda é a DeBeers e companhias subsidiárias e a terceira a Rio Tinto, da Austrália. Pelo menos 95% da produção mundial pertence ao grupo Diamond Trading Company. Das minas apresentadas na figura 81, por volta de 90% delas tem participação de no mínimo uma dessas três empresas citadas acima. Debswana, da Debeers (50% e 50% estatal da Botswana), a Namdeb também da DeBeers (50% e 50% estatal da Namíbia) e a DBCM que é a própria DeBeers Consolidated Mines.

 Nos últimos anos, a DeBeers vem sendo associada a uma nova especulação de compras de diamante em zonas de conflito, ou reservas florestais e indígenas (como no caso da Amazônia ). A empresa resolveu notificar legalmente seus clientes de que eles estavam proibidos de informar aos laboratórios que seus diamantes tinham sido adquiridos de alguma empresa ligada à DeBeers. Fica assim legalmente afastada a possibilidade de uma análise gemológica detectar que um diamante daquela empresa era originário das zonas de conflito.

 Outro fator importante do mercado atual de diamantes e que pode mudar totalmente a forma como o mesmo está configurado, é a crescente produção de diamantes em laboratório. Os diamantes sintéticos como são conhecidos, ganham cada vez mais espaço no mercado. Expectativa é de crescimento deste mercado a cada ano, podendo chegar, de acordo com especialista, a dominar o mercado mundial de diamantes, na próxima década. A DeBeers já possui uma subsidiária chamada Element Six, responsável por sintetização de diamantes e, recentemente, anunciou a venda de diamantes sintéticos pela sua outra subsidiária Lightbox Jewelry.

 É esperado para o futuro uma grande jogada de marketing associando os diamantes sintéticos ao combate de “diamantes de guerra” e ao fim dos impactos ambientais causados por tal atividade. Resultado seria uma grande desvalorização dos diamantes naturais e aumento dos preços dos diamantes sintéticos. Analistas do mercado de diamantes avaliam que esse fenômeno ocorreria por um curto período de anos até os diamantes naturais alcançarem um nível estável em seus valores, ocorrendo logo em seguida, uma revalorização lentamente do preço como correria com qualquer bem esgotável.

 

Figura 1. Principais jogadores do mercado diamantífero no mundo e suas respectivas minas. Retirado do site da empresa ALROSA: http://eng.alrosa.ru/diamonds-explained/the-world-diamond-market/#tab-2.

Referências 

  1. Spar. D. L. Markets: Continuity and Change in the Internacional Diamond Market. The Journal of Economic Perspectives 20(3), 195-208 (2006).
  2. Siegel, D. Livro: The Mazzel Ritual: Culture, Customs and Crime in the Diamond Trade. Spinger-Verlag (2009).
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